Desde a campanha eleitoral de 1998 que eu venho alertando o leitor e denunciando o uso das pesquisas de opinião como ferramenta publicitária de indução de voto, principalmente no Rio Grande do Norte.
Os profissionais de marketing político e os assessores de campanha descobriram que não é preciso burlar a planilha ou forjar os índices nos resultados divulgados na mídia. Há um truque quase imperceptível aos olhos da maioria.
A transação é feita na seleção dos locais e suas respectivas quantidades de entrevistas, bastando que o instituto da confiança do candidato A ou B receba da assessoria de campanha o quadro certo das regiões favorecidas eleitoralmente ao cliente.
Durante quase duas décadas eu venho chamando a atenção dos meus leitores na coluna Portfolio, no diário vespertino O Jornal de Hoje (e já o fazia antes no Diário de Natal), sobre o manuseio das pesquisas como artimanha para ludibriar a sociedade.
Ocorre que grande parte do eleitorado, por um estímulo natural da despolitização, compreende que votar certo é quase sempre votar no candidato com tendência de vitória, segundo as informações que decodifica na mídia, principalmente na divulgação e repetição das pesquisas.
Ao longo de uma quinzena de eleições diretas já ocorridas no Brasil desde a redemocratização iniciada ao fim do governo de João Batista Figueiredo, as pesquisas de opinião foram manipuladas ao bel prazer do balcão de negócios em que se transformou tal serviço.
Partidos e grupos políticos têm seus institutos preferidos e fazem uso deles a cada eleição, sempre prestando um grande trabalho de assessoria informal ao candidato que apóia. E isso não significa que as pesquisas são divulgadas com a falsificação dos dados colhidos nas ruas. Não. O truque é outro.
Não é preciso rasurar planilhas, falsificar as respostas de questionários, alterar dados após as entrevistas. Só basta mexer no roteiro dos locais para aferição e modificar a quantidade de entrevistados, de acordo com a tendência eleitoral da região e/ou bairro em favor do candidato-cliente.
Um exemplo claro ocorreu recentemente aqui no Rio Grande do Norte em duas pesquisas de um mesmo instituto, exatamente um de grande reputação, mas que nas últimas seis eleições só acertou os resultados após reajustes de percurso nas últimas semanas dos pleitos.
Como se sabe, a candidata da oposição Rosalba Ciarlini (DEM) lidera todas as aferições em todos os institutos há meses, com larga folga que pode garantir sua vitória já no primeiro turno. Na primeira pesquisa em questão, aplicada com 812 entrevistas, ela obteve 48%, contra 20% do governador Iberê Ferreira e 12% do ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo.
Na estratificação que define as parcelas de entrevistados por cidades, que deve seguir a proporcionalidade demográfica, coube à capital o maior número de questionários, 196, seguida pela segunda maior cidade, Mossoró, com 70 entrevistas. Outras duas, São Gonçalo e Parnamirim, situadas na Grande Natal, ficaram com 28 cada uma.
Eis que, na semana seguinte, uma outra pesquisa realizou-se, de novo com 812 entrevistas, que apontou queda da candidata Rosalba e subida dos dois adversários, Iberê e Carlos Eduardo. Não é preciso informar que o marketing político do primeiro fez o que sempre se faz nessas horas: festejou na mídia e nas ruas a perspectiva de segundo turno.
O que a mídia, nem muito menos a rua (que não tem nada a ver com isso) sabem é que o segredo da queda de um e da subida de outro não está em fatos novos ou na inversão espontânea do sentimento do eleitor. O segredo, ou o truque, está no roteiro para registro da pesquisa no Tribunal Regional Eleitoral, que também nem desconfia.
De posse dos roteiros da estratificação feita pelo “honorável” instituto, descubro mais uma vez a estratégia de marketing camuflada no uso das pesquisas. Mandou-se às favas a proporcionalidade demográfica em favor dos municípios em que o eleitorado de Rosalba é equivalente ou menor que o dos seus adversários.
Num pequeno universo de 812 pessoas, o resultado muda facilmente se no lugar de 70 entrevistas em Mossoró forem aplicadas apenas 56, como fez o instituto na segunda rodada. Ou se, vejam o absurdo, em São Gonçalo (reduto de Iberê Ferreira) a quantidade de entrevistas duplicar de 14 para 28 e o inverso ocorrer em Parnamirim (onde Rosalba tem grandes apoios), caindo de 42 para apenas 28 entrevistas.
O resultado disso, em comparação com a pesquisa feita poucos dias antes, foi devidamente festejado pelos governistas, claro. Rosalba caiu para 46%, Iberê subiu para 24% e Carlos Eduardo foi a 14%. Até os chamados candidatos nanicos, sem qualquer fato favorável, saíram da situação de traço.
O que deve ocorrer a partir daí já é bastante repetitivo na história das campanhas eleitorais potiguares. Quem tem mais capacidade de organizar o melhor jogo de estatística, de contar com o maior número de institutos trabalhando para disfarçados parceiros, vai investir pra valer na indução do eleitorado, também conhecido tecnicamente como “a massa”.
E massa é factível de manobras, desde a eleição entre Jesus e Barrabás.
Conteúdo do site alexmedeiros.com.br
Comentários 0 Comments