Rinaldo Barros é um observador atento e perspicaz da cena brasileira.
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Tudo continua como dantes
(*) Rinaldo Barros
Semana que passou vivenciei uma experiência de retorno ao passado, à minha juventude. Fui procurado por uma pessoa que não via há 40 anos, um operário que conheci nos anos de chumbo, tempo em que eu encarnava um dirigente de uma organização que ainda vive e atua. Surpreendeu-me o ex-companheiro ao exibir suas idéias atuais, incrivelmente, iguais ao que concebíamos nos anos 70, como se o tempo não tivesse passado; e deixou-me pasmo ao constatar que nada havia mudado em sua mente, nem mesmo frente às revoluções tecnológicas e econômicas mundiais.
Para ele, não há diferença alguma entre a sociedade industrial – que já não mais existe - e a contemporânea sociedade da informação. Na minha frente estava um homem incapaz de evoluir, de se transformar e de perceber as transformações ao seu redor. Como pude acreditar que faríamos uma Revolução?
Desde então, minha cabeça tem sido martelada por uma questão: por que a esquerda brasileira logrou ser alternativa de governo, mas nunca conseguiu ser alternativa de poder?
Esclareço logo que não falo apenas dos comunistas, mas da esquerda em geral, incluindo a católica.
Na virada do século XX para o século XXI, a América do Sul assistiu ao agravamento da questão social em decorrência das políticas neoliberais adotadas nas décadas precedentes. Isso fortaleceu os movimentos sociais e os partidos políticos que representavam (?) alternativas de mudança.
É o que explica a eleição para presidente da República de Hugo Chávez na Venezuela, Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador e Fernando Lugo no Paraguai.
Peço ao caro leitor um pouco mais de atenção, a partir de agora.
Ao chegar ao Governo Federal – além de renunciar aos princípios do seu partido no documento “Carta ao povo brasileiro” (22.06.2002) - o governo Lula preencheu considerável parcela das milhares de funções administrativas com a nomeação de militantes do PT, líderes de movimentos sociais; fenômeno conhecido como “aparelhamento do Estado”.
O mérito e a competência não foram, e nem são considerados.
Afastados de suas bases, essas lideranças estão hoje perfeitamente adaptadas às benesses do poder, sem o menor interesse em retomar o “trabalho de base”. Instados a se manifestar, são a voz do governo junto às bases, e não o contrário. Ou seja, contrariando as facções radicais (atrasadas) do PT, o governo Lula optou por uma governabilidade baseada na política de conciliação com setores dominantes, e políticas compensatórias para os dominados e subalternos. Curiosamente, dentro do receituário econômico do governo anterior (Henrique Meireles, em 2003, era do PSDB). Os lucros astronômicos dos bancos e das grandes empresas assim o comprovam.
Ao assumir a presidência, Lula poderia ter assegurado sua sustentabilidade política em duas pernas: o Congresso Nacional e os movimentos sociais.
Entretanto, enganando a todos, o governo Lula tornou-se refém (voluntário) de forças políticas tradicionais, oligárquicas, reacionárias, que ora integram o grande arco de alianças de apoio ao atual governo de sua sucessora, ainda sem luz própria, cuja candidatura foi imposta por Lula ao PT e ao eleitorado.
O governo Lula – pragmático - adotou uma política de relação direta com parcela mais pobre da população, sem a mediação dos movimentos sociais, como é o caso do programa Bolsa Família (uma ampliação dos “Bolsa Escola” e do “Bolsa Alimentação”, criados no governo do PSDB), que ocupou o lugar do fracassado “Fome Zero”.
Este último, pelo menos, apoiava-se em Comitês Gestores integrados por lideranças da sociedade civil, que controlavam e fiscalizavam a iniciativa. Com o Bolsa Família, o mesmo papel é exercido pelas prefeituras.
E o propósito emancipatório, de manter as famílias no Programa por, no máximo, dois anos, foi abandonado em favor de uma dependência duradoura, que transformou o programa numa máquina eleitoral.
É óbvio que tal prática enfraqueceu e imobilizou os movimentos sindicais e sociais e, ao mesmo tempo, pôs o núcleo governante voltado unicamente ao seu próprio projeto de perpetuação no poder.
Nas alianças eleitorais, negociam-se tão somente cargos, tempo de televisão e custos de campanha.
Tais mudanças apontam para a perda do horizonte ético que sempre norteou a esquerda. Trata-se agora de sobreviver politicamente, num cenário que combina a economia de mercado com uma política de caráter compensatório, não emancipatório, não desenvolvimentista.
Assim, questões maiores da pauta histórica da esquerda, como a reforma agrária, reforma fiscal, reforma urbana, reforma política e reforma universitária foram relegadas a um futuro incerto.
Pra mim, está claro que Dilma representa a esperança dos petistas radicais.
Lula foi apenas governo, Dilma tentará ser alternativa de poder. Quem viver verá.
Daí a obsessão com o controle da imprensa: é uma das cláusulas pétreas da ala ideológica do PT.
Resumo da ópera: o Projeto civilizatório da Nação brasileira foi descartado em beneficio de um projeto de poder de um grupo dominante, fazendo alianças com partidos e forças sociais e econômicas que o PT, ao ser fundado, propunha enfrentar e derrotar.
Ou seja, o tempo passa mas tudo continua como dantes, tal como a mente de muitos “militantes”.
(*) Rinaldo Barros é professor da UERN e presidente do PSDB Natal – rb@opiniaopolitica.com
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