Rinaldo Barros é um observador atento e perspicaz da cena brasileira.
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Refrescando a memória
(*) Rinaldo Barros
Em razão da minha história pessoal, vivenciada como cidadão e militante nas fileiras das forças progressistas, protagonista das articulações que resultaram na fundação do PT, e filiado em sua primeira Comissão Provisória, na Villa Kennedy, em São Paulo (tenho foto do evento); e também como ex-preso político durante os anos de chumbo; de vez em quando, sou cobrado por alguém. Cobram-me um alinhamento incondicional ao governo do PT, como se eu não tivesse o direito legítimo de livremente pensar, criticar e mudar de opinião. Aproveito este espaço para justificar meu posicionamento crítico em relação ao governo lulo-petista, refrescando a memória dos atores de ontem de hoje. Vejamos.
A gestão Lula valeu-se sobejamente das condições favoráveis que o processo histórico lhe legou, mas o PT sempre requisitou para si o papel de protagonista privilegiado e exclusivo das transformações. A verdade, no entanto, é que nunca antes se viu um governo que compactuasse tanto com a corrupção e os escândalos.
Sob o manto protetor da popularidade sem precedentes, Lula agiu como se pairasse acima do bem e do mal. Seus atos acabaram por transmitir à sociedade uma espécie de salvo-conduto para o erro, uma aprovação prévia ao malfeito, uma leniência ante os desmandos e uma condescendência com quem age fora da lei. Uma herança pra lá de maldita para o governo Dilma.
É fato que o Brasil experimenta um momento de rara estabilidade política e econômica, com vigor poucas vezes vista em nossa história. Mas isso não é algo que tenha começado a ser construído no governo do PT. Trata-se de processo iniciado a partir da redemocratização do país, desde 1985, após o país ter atravessado 21 anos sob regime militar. São, portanto, duas décadas e meia de sucessivos avanços, e que ora vão encontrando seu estuário.
O governo Lula valeu-se inteligentemente das condições favoráveis que o processo histórico lhe legou. Recebeu uma “herança bendita” de conquistas incrementais alcançadas ao longo dos mandatos de vários presidentes da República, mas radicalmente aprofundadas nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, quando os brasileiros conquistamos a tão sonhada estabilização da moeda, com o Plano Real.
Hoje, as forças políticas brasileiras relevantes comungam valores e princípios. O sistema institucional, político e econômico brasileiro exibe vitalidade e, sobretudo, amadurecimento. Há amplo consenso em torno de preceitos como a estabilidade econômica, a responsabilidade fiscal e o respeito à Democracia e ao Estado de Direito.
Mas nem sempre foi assim: na oposição, o PT tentou obstruir muitos dos avanços institucionais que fazem do Brasil hoje um país melhor para se viver.
Não custa lembrar: o partido de Lula negou-se a votar em Tancredo Neves no colégio eleitoral e ainda expulsou seus parlamentares que apoiaram o presidente eleito. Em seguida, negou-se a assinar a Constituição de 1988. Negou-se a apoiar o governo Itamar após o impeachment de Fernando Collor em 1992. Negou-se a apoiar o Plano Real, que, a partir de 1994, estabilizou a economia brasileira após várias tentativas frustradas. Votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, que impôs rigor ao trato dos recursos públicos.
Alçado ao comando da nação sob a promessa da mudança e da transformação social, todos esperavam que o PT exercitasse o viço da renovação e da ética com que acenara ao longo dos 22 anos em que lutou para chegar ao poder. Muito pelo contrário, os oito anos do governo de Lula permitem concluir que o petismo esteve longe de preencher tais expectativas.
Ao chegar ao poder, o PT aposentou a retórica revolucionária que lhe serviu de mote desde a sua fundação. Para a sorte do país, os fundamentos econômicos foram preservados, mantendo intactos os esteios antes demonizados pelo petismo. Neste aspecto, foi ótimo que o PT tenha agido assim: qualquer alternativa distinta possivelmente teria posto o país no caminho da desintegração.
Todavia, foi na prática política que o PT conseguiu ser lamentavelmente mais retrógrado. O governo de Lula protagonizou o maior escândalo de corrupção da história brasileira, o mensalão; esquema de corrupção agora confirmado pelo parecer do Procurador Geral da República. O esquema de desvio de dinheiro público para a compra de apoio parlamentar envolveu o coração do projeto de poder petista, a ponto de implodir nomes que sempre figuraram como prováveis sucessores naturais de Lula.
Mas a chaga da corrupção no governo do PT é mais profunda e espraiou-se pelo aparato estatal com desenvoltura inusitada. A lista de malfeitos é longa.
Lamentavelmente, o partido que se preparou durante mais de duas décadas para assumir o governo em nada aperfeiçoou a política brasileira. Lamentavelmente, o PT renovou as piores práticas de exercício do poder, o compadrio político aliado a corrupção e, pior; deu vida nova a carcomidas lideranças comprometidas com o atraso do nosso país. Em verdade, o PT assumiu o governo, mas, em razão de suas alianças, nunca esteve efetivamente no poder.
Pois bem. Em que pese o fato de que sempre estive, e continuo, aberto a novas idéias; os valores e princípios que assimilei em minha formação me fizeram inadequado para compactuar com a corrupção, a improbidade administrativa, o fisiologismo e a manipulação das massas. Justifico assim o meu posicionamento político atual.
E mais: sou otimista, e aposto que o nosso país ainda encontrará o caminho de busca da Estrela da Manhã.
(*) Rinaldo Barros é professor da UERN e presidente do PSDB Natal – rb@opiniaopolitica.com
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