Rinaldo Barros é um observador atento e perspicaz da cena brasileira.
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A verdadeira maneira de se enganar é julgar-se mais sabido que outros. (La Rochefoucauld)
O azar de Al Capone foi ter nascido um século mais cedo e no lugar errado.
Caso tivesse atuado no Brasil de hoje, poderia afirmar que a máfia só existiu na cabeça de um bandido chamado Elliot Ness, e poderia também garantir que tratava o Fisco com tamanho respeito que foi até convidado para cuidar das declarações de renda dos monges eremitas do Mosteiro dos Beneditinos.
A conversa de hoje serve como um desabafo deste locutor que vos fala. Estou começando a me cansar de tanto assistir ao trinfo das nulidades. Cito apenas alguns casos.
O caro leitor deve ser conhecedor que os integrantes das casas legislativas federais – Câmara Distrital, Câmara Federal e Senado - não cansam de debochar e insultar a inteligência dos brasileiros honestos. Transformaram o Congresso numa Casa do Espanto. Senão, vejamos.
Sarney preside o Senado pela quarta vez consecutiva (é tetrapresidente), “reclamando do sacrifício que faz, como um grande favor ao povo”. Uma patifaria a mais na rotina de obscenidades que agride o povo brasileiro quase cotidianamente.
Lembro também que, em primeiro mandato, o deputado distrital Agaciel Maia foi indicado para presidir a Comissão de Orçamento e Finanças da Câmara Distrital, em Brasília. Agaciel foi demitido da Diretoria Geral do Senado, por justa causa, sob acusação de corrupção passiva e de inventar o ato oficial secreto, nomeações sem publicação no Diário Oficial. Eleito, agora volta para presidir a mais importante comissão do parlamento distrital. Mais um deboche aos eleitores que, um dia, o Pelé disse que não sabiam votar. Será verdade?
Nada mais surpreendente, porém, do que a ascensão do deputado João Paulo Cunha à presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal. Cunha é acusado de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro no processo sobre o mensalão, foi denunciado pelo Procurador Geral de Justiça e o processo ainda corre no Supremo Tribunal Federal. Foi um dos chefes da quadrilha que protagonizou o maior escândalo da história da República. Um cheque (uma das propinas recebidas) de R$ 50 mil valerianos recolhido pela mulher de João Paulo na agência do Banco Rural acabou por incluí-lo como parte da quadrilha.
Hoje, debochando de todos nós, Cunha acha que merece uma indenização em dinheiro “por danos morais”. E os seus pares o indicam para presidir a CCJ, por onde passam todos, eu disse todos, os projetos que tramitam no Congresso Nacional.
Cito ainda o curioso caso do atual Corregedor da Câmara, deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), o qual chegou ao posto, suponho eu, por ter sido o melhor aluno do professor de bandalheiras Severino Cavalcanti (PP-PE), ex-presidente da Casa, que recebia comissão do dono do restaurante da Câmara Federal; e foi destituído pela maioria dos deputados.
Quero alertar aqui que, associadas às infâmias recentes, estas afrontas atestam que deve estar na fase dos arremates uma perigosa ofensiva, concebida em parceria pelo Palácio do Planalto e pelos que mandam no Congresso Nacional; destinada a constranger os ministros do Supremo Tribunal Federal, com o objetivo claro de livrar do merecidíssimo castigo os integrantes da quadrilha do mensalão.
Confiantes na exasperante lentidão da Justiça e na amnésia endêmica da população brasileira, os comandantes da ofensiva contra o Estado Democrático de Direito apostam na prescrição dos prazos e na discurseira sobre “falta de provas”. Acham que o processo dará em nada. Acham, sobretudo, que já não há juízes dignos no Brasil.
Espero sinceramente que estejam enganados. Lula, Dilma, Dirceu e seus asseclas podem aprender tarde demais que a esperteza, quando é muita, cresce e engole o sabido.
Oxalá, e este é o maior dos oxalás, a maioria dos ministros do STF esteja atenta para o fato de que, se o Supremo absolver os quadrilheiros, estará avalizando a falácia segundo a qual o mensalão não existiu. Se essa tragédia se fizer vida, o Judiciário começará a deixar de existir como poder independente.
Além de cega, a Justiça, tristemente, ficará também de joelhos.
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