Rinaldo Barros é um observador atento e perspicaz da cena brasileira.
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A conversa de hoje é política, digamos, bastante séria e profunda.
A questão foi colocada por Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, frade dominicano e escritor: Por que a esquerda logrou ser alternativa de governo, mas não conseguiu ser alternativa de poder?
Esclareço logo que não falo apenas dos comunistas, mas da esquerda em geral, incluindo a católica.
Na virada do século XX para o século XXI, a América do Sul assistiu ao agravamento da questão social em decorrência das políticas neoliberais adotadas nas décadas precedentes. Isso fortaleceu os movimentos sociais e os partidos políticos que representavam (?) alternativas de mudança.
É o que explica a eleição para presidente da República de Hugo Chávez na Venezuela, Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador e Fernando Lugo no Paraguai.
Peço ao caro leitor um pouco mais de atenção, a partir de agora.
Lembra Frei Betto que, ao chegar ao Governo Federal – além de renunciar aos princípios do seu partido no documento “Carta ao povo brasileiro” (22.06.2002) - o governo Lula preencheu considerável parcela das milhares de funções administrativas com a nomeação de militantes do PT, líderes de movimentos sociais; fenômeno conhecido como “aparelhamento do Estado”.
O mérito e a competência não foram considerados.
Afastados de suas bases, essas lideranças estão hoje perfeitamente adaptadas às benesses do poder, sem o menor interesse em retomar o “trabalho de base”. Instados a se manifestar, são a voz do governo junto às bases, e não o contrario.
Ou seja, contrariando as facções radicais (atrasadas) do PT, o governo Lula optou por uma governabilidade baseada na política de conciliação com setores dominantes e de compensação para os dominados e subalternos. Curiosamente, dentro do receituário econômico do governo anterior (Henrique Meireles, em 2002, era do PSDB).
Os lucros astronômicos dos bancos e das grandes empresas assim o comprovam.
Ao assumir a presidência, Lula poderia ter assegurado sua sustentabilidade política em duas pernas: o Congresso Nacional e os movimentos sociais. Entretanto, enganando a todos, o governo Lula tornou-se refém (voluntário) de forças políticas tradicionais, oligárquicas, reacionárias, que ora integram o grande arco de alianças de apoio ao seu governo e à sua candidata sem face, mas com história ligada ao militarismo, à guerrilha urbana.
Dilma nunca lutou pela redemocratização, mas acredita na luta armada para conquistar o poder.
Por sua vez, o governo Lula adotou uma política de relação direta com parcela mais pobre da população, sem a mediação dos movimentos sociais, como é o caso do programa Bolsa Família (uma ampliação do Bolsa Escola, criado no governo do PSDB), que ocupou o lugar do fracassado Fome Zero.
Este último, pelo menos, apoiava-se em Comitês Gestores integrados por lideranças da sociedade civil, que controlavam e fiscalizavam a iniciativa. Com o PBF, o mesmo papel é exercido pelas prefeituras.
E o propósito emancipatório, de manter as famílias no Programa por, no máximo, dois anos, foi abandonado em favor de uma dependência duradoura que traz ao governo bônus eleitoral.
É óbvio que tal prática enfraquece e imobiliza os movimentos sociais e, ao mesmo tempo, põe o núcleo governante voltado unicamente ao seu próprio projeto de perpetuação no poder.
O fenômeno do Lulismo (87% de aprovação no RN) se descolou do petismo histórico. A direção do PT, por sua vez, aceitou restringir-se ao jogo do poder. Agora, o processo de filiação de novos militantes já não obedece a critérios ideológicos, nem há cursos de capacitação política.
Nas alianças eleitorais, negociam-se tão somente cargos, tempo de televisão e custos de campanha.
Tais mudanças apontam para a perda do horizonte ético que norteava a esquerda. Trata-se agora de sobreviver politicamente, num cenário que combina a economia de mercado com uma política de caráter compensatório, não emancipatório, não desenvolvimentista.
Assim, questões maiores da pauta histórica da esquerda, como a reforma agrária, reforma fiscal, reforma urbana, reforma política e reforma universitária foram relegadas a um futuro incerto.
Daí a tentativa de registrar no TSE o programa de governo – autoritário - aprovado no 4º. Congresso Nacional do PT, baseado no livro de Karl Polanyi, “A Grande Transformação: as origens de nossa época” - Rio de Janeiro, Editora Campus. As mesmas propostas compõem o Plano Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3, aprovado por decreto de Lula, que assinou sem ler. Acredito que Lula não leu mesmo, se tivesse lido não assinaria.
Foi uma tentativa dos radicais de dar um nó em Lula, de levá-lo a avalizar as propostas ideológicas.
Ou seja, Dilma representa a esperança dos petistas radicais. Acredite: Dilma é o oposto do Lula!
Daí a obsessão com o controle da informação: é uma das cláusulas pétreas da ala ideológica do PT.
Resumo da ópera: segundo Frei Betto, “o Projeto civilizatório da Nação brasileira foi descartado em beneficio de um projeto de poder de um grupo dominante, fazendo alianças com partidos e forças sociais e econômicas que o PT, ao ser fundado, propunha enfrentar e derrotar”.
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