Rinaldo Barros é um observador atento e perspicaz da cena brasileira.
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Em artigos anteriores, abordei, a voo de pássaro, a história do surgimento da vida em nosso planeta. Lembro que o Homo sapiens sapiens (nossa espécie) surgiu há aproximadamente 150 mil anos atrás, possivelmente na África. Como a história é comprida, vamos continuar. Em verdade, deveríamos falar que o que somos hoje é o resultado da intersecção de duas histórias paralelas: a história natural e a história social.
Nesta última, distanciamo-nos da Natureza e criamos a Cultura e a Tecnologia, uma espécie de segunda Natureza. Daí porque a própria evolução deve ser repensada como uma co-evolução. Os Homo sapiens sapiens co-evoluímos em conjunto com as outras espécies, com o meio ambiente e com o cosmos. Ou seja, participamos de um sistema vivo complexo, aberto e em expansão. Voltemos ao começo.
Como vimos, após a derrocada dos nossos primos, Homo Sapiens neanderthalensis, ficou a impressão de que a nossa subespécie, Homo sapiens sapiens, a exemplo dos demais animais, passou a relacionar-se com a Natureza como uma unidade harmoniosa. Santa Ingenuidade! No começo, até que era assim. Mas, alguns de nós logo descobrimos o fascínio que é exercer o poder sobre os demais. E as formações sociais tornaram-se cada vez mais divididas.
A ciência comprova que foi na passagem do estágio superior da barbárie para a civilização que, com um maior domínio sobre a Natureza, pôde o homem aumentar sua produção e com isso obter um excedente. Neste momento, nasceu a ganância.
Até então a produção e a exploração da terra eram comuns. Com o excedente, veio a diferenciação entre os indivíduos na posse de bens diversos, principalmente alimento, vestuário e habitação, e a divisão na produção entre dirigentes e executores.
Surge então a propriedade privada, a divisão do trabalho e com ela um salto no desenvolvimento da história. Com a propriedade privada, os produtores não produzem mais em comum para seu próprio consumo, mas individualmente. E se separam do resultado de seu trabalho, não sabem mais de seu destino. Agora produzem para a troca, para a venda.
Surge a exploração individual da terra e sua posse privada, tornando-a, por conseqüência, uma mercadoria. No seu desenvolvimento, a troca fez surgir o mercador. Alguém separado totalmente da produção que passa a dominar o produto e a produção.
O mercador, como parasita, passa a dominar e acumula grande riqueza e com ela, prestígio e poder. Aparece o dinheiro e a moeda cunhada, instrumento de domínio do mercador sobre os produtores e a produção.
A divisão em classes, e a luta entre elas fez desagregar-se a sociedade baseada nas uniões gentílicas, dando lugar a uma nova organização: o Estado.
O dinheiro como equivalente geral elevou-se à condição de mercadoria especial. Aparecem o empréstimo, os juros e a usura. Logo, o próprio homem, como força de trabalho, virou também mercadoria.
A prática social dos Homo sapiens sapiens vai se aprofundando, da luta pela produção, nas condições da propriedade privada e da divisão do trabalho, à luta de classes.
O conflito social entre classes antagônicas levantadas sobre o modo de produzir desenvolve-se como fator subjetivo na condição de motor da história, impulsionando o desenvolvimento da tecnologia, e da competição.
Como ensina Oscar Motomura (motomura@amana-key.com.br), “tecnologia nada mais é do que a extensão de nosso dom de criar”. Definitivamente, o Homo sapiens sapiens é um ser que cria. É a nossa natureza.
Gradualmente, século após século, década após década, ano após ano, cada vez mais rapidamente, vamos descobrindo mais e mais sobre como tudo funciona. E vamos usando as novas descobertas para criar mais.
Mas criamos para quê? Com que propósito, estamos usando o dom de criação? Para que criamos novas tecnologias, novos produtos, novos jeitos de morar, de cozinhar, de movimentar, de transportar, de comunicar?
Essa brincadeira poderia até estar nos levando a criar mais e mais produtos para melhorar a vida e potencializar o conforto de bilhões de pessoas. Mas, apenas a minoria está sendo beneficiada. Sem falar na tecnologia a serviço da irracionalidade destruidora das guerras.
Imagine o leitor os impactos que advirão com a aplicação do conhecimento novo nas áreas da Biotecnologia (genes), da Neurociência (neurônios) e da Nanotecnologia (átomos). O que fazer para minimizar os prováveis impactos negativos? Uma nova regulação jurídica internacional? Controlar as políticas públicas, as pesquisas de ponta e as patentes registradas pelos conglomerados multinacionais?
O que fazer para que não se consolide a miniaturização do homem pós-moderno (egoísta, acanhado, agachado, pequeno, sem grandeza), para o qual somente importa o “eu” e o “agora”?
Resumo da ópera: a igualdade entre os povos é ainda uma bandeira de luta, existe apenas como conceito na Filosofia do Direito. A desigualdade e ganância provocam a agressão à Natureza, o desvio de recursos tecnológicos - e nossa própria capacidade criativa - para a busca do lucro máximo e do consumo supérfluo.
Ah! Ia-me esquecendo de dizer que (segundo o jornal The Wall Street Journal, de 21.01.2011) os EUA deverão registrar um déficit orçamentário de mais US $ 1 trilhão em 2011, o que nos leva a essa reflexão: “tudo o que é sólido desmancha no ar”. Será?
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