Rinaldo Barros é um observador atento e perspicaz da cena brasileira.
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Nos anos 60, quando eu estudei no Colégio Estadual de Pernambuco (escola pública), velho casarão da Rua da Aurora, em Recife, os professores eram respeitados como autoridades incontestes; os alunos levantavam-se quando o professor adentrava a sala de aula.
Até hoje, guardo na memória a figura austera do meu professor de português recitando poesias, como ato corriqueiro de demonstração de amor e admiração pelos autores. Os versos não eram matéria de avaliação, não iam cair na prova. O professor amava o que fazia e era respeitado por isso.
O diretor era um líder, exercia o cargo por merecimento, mas agia basicamente por intuição.
Descontados os exageros, não há como negar que, na minha infância e juventude, o diretor era mesmo um gerente preocupado só com questões burocráticas. De lá para cá, muita coisa se transformou, a começar pela criação da expressão "gestor escolar" para se referir aos diretores, vice-diretores, coordenadores pedagógicos, supervisores e assessores técnicos. Hoje, exigem-se outras competências para esses cargos.
Foi a Constituição de 1988 que colocou em cena o termo gestão democrática: mais participação de pais e da comunidade, seja para eleger o diretor, seja para ajudar a tomar decisões. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, trouxe mais uma novidade: a necessidade de cada escola preparar o próprio projeto pedagógico - antes definido pela Secretaria da Educação, sem a participação dos professores.
Isso ampliou a responsabilidade do diretor sobre as questões pedagógicas e a gestão da equipe. Paralelamente, surgiram demandas administrativas, (inclusão de novos alunos) e na esfera financeira, já que as escolas começaram a receber recursos financeiros diretamente e precisam, agora, administrar e prestar contas.
Em apenas 25 anos, o diretor escolar foi obrigado a trabalhar com um novo perfil de aluno (protagonista), aprender a conversar com interlocutores que não faziam parte de seu cotidiano, gerir recursos financeiros, preocupar-se com a qualidade dos profissionais e pilotar a construção de um projeto com foco na aprendizagem. Para ajudá-lo, várias redes começaram a organizar a gestão da escola na forma de um tripé: além do próprio diretor, ganham espaço o coordenador pedagógico (com foco na formação dos professores) e o supervisor de ensino (capacitado como agente da Secretaria de Educação que forma e auxilia os gestores).
Dentro de algumas escolas, a função de coordenador pedagógico nem sempre é bem delimitada. Muitos acham que o profissional que exerce o cargo é um auxiliar do diretor para as questões burocráticas. Outros acreditam que cabe a ele resolver os problemas disciplinares dos alunos. E o pedagógico que está na denominação do cargo quase sempre é esquecido. Porém é essa palavra que define a tarefa do coordenador: fazer com que os professores se aprimorem na prática de sala de aula para que os alunos aprendam sempre. Para isso, ele só tem um caminho: realizar a formação continuada dos docentes da escola.
A necessidade de haver formação continuada só surge quando o professor é visto como um profissional que deve sempre aperfeiçoar sua prática ao fazer um trabalho de reflexão sobre ela. É aí que surge o papel de formador do coordenador pedagógico, que se torna imprescindível para orientar esse processo.
Para bem cumprir a função, ele deve estar sempre atualizado (o que significa estudar muito) com as didáticas específicas – compostas dos saberes sobre os conteúdos, da forma de ensinar cada um deles e da maneira como as crianças aprendem, em cada contexto.
O professor, por excelência, é (ou deveria ser) o profissional que sabe ensinar e tem domínio sobre os conteúdos que leciona. Aparentemente óbvios, esses preceitos não se confirmam no dia-a-dia, e a maior causa disso é a formação inicial. Inexplicavelmente, o curso de Pedagogia, que deveria garantir a competência de quem leciona, forma profissionais despreparados. O resultado é a péssima qualidade da Educação no país.
No Brasil, grande parte do conteúdo dos cursos de Pedagogia é voltada para o funcionamento dos sistemas educacionais e os fundamentos da Educação (História, Psicologia, Filosofia da Educação etc.).
Uma boa base teórica em humanidades é necessária, mas não é suficiente.
A graduação deveria orientar os futuros professores a se servir de conhecimentos teóricos para refletir sobre o cotidiano, vivenciando esse cotidiano na realidade concreta das escolas, através de estágios remunerados - o que ainda não acontece até hoje, salvo honrosas exceções.
Os futuros médicos vivenciam o cotidiano dos hospitais, com o objetivo de digerir as teorias na prática. São residentes, para aprender a fazer, fazendo.
Por que a formação dos futuros professores não se contamina com a dura realidade do dia-a-dia das escolas?
O lado bom é que, às vezes, parece que minhas lembranças do velho casarão da Rua da Aurora insistem em se reproduzir nas escolas do século XXI. Saudade danada!
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