Rinaldo Barros é um observador atento e perspicaz da cena brasileira.
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A conversa de hoje é uma reflexão sobre a violência e sua relação com o poder, em seu mais amplo sentido.
No planeta, existem diversas áreas de conflitos decorrentes de problemas políticos, religiosos e econômicos, que abalam a estrutura político-administrativa de cada lugar, expondo a face violenta do ser humano.
Algumas estimativas revelam que o comércio mundial de drogas e armas gera um volume aproximado de 300 bilhões de dólares ao ano, superando o PIB (Produto Interno Bruto) de vários países.
O narcotráfico funciona como um conglomerado de empresas capitalistas das mais eficientes e completamente adaptadas à realidade neoliberal, fiel ao deus-mercado. São empresas concentradoras de renda, altamente lucrativas, que utilizam mão-de-obra barata. São empresas que se estabelecem em espaços onde não têm nenhuma preocupação com exigências legais ou cobranças de impostos.
São organizações com forte produção de alienação do trabalho, onde a mão-de-obra não tem a menor idéia do quanto rende a atividade no seu total.
E o efeito social disso é terrível: temos uma juventude completamente perdida, sem nenhuma expectativa de futuro, que segura em armas e que vivencia toda uma ilusão de poder.
O futuro dessa garotada que está no tráfico, como soldado ou viciado, é a dependência, a cadeia ou a morte.
Além de ter essas características capitalistas, o narcotráfico é absolutamente opressor e se estabelece na favela através da construção de uma política de terror, onde jovens pobres matam jovens esfarrapados diante de facções que representam o que a opinião pública entende por crime organizado. Ledo engano.
O crime é muito organizado no Brasil. É tão organizado que a sua real organização não é visível.
O que boa parte da imprensa e da opinião pública entende como crime organizado é exatamente onde ele não se organiza - nos setores mais pobres, onde o que existe é o ponto final de um investimento absolutamente hierárquico, internacional, muito lucrativo e desigual.
O narcotráfico está entre os três comércios mais lucrativos do mundo. Se você entra em uma favela, vai ver muita arma, muita droga e muita miséria. Tem alguma coisa errada nesse elo. O dinheiro não fica ali.
O que fica livre é toda uma hierarquia “invisível” que realmente controla a atividade no atacado, onde as investigações nunca chegam, porque também não interessa.
A lógica da segurança pública construída no nível federal e estadual é a da repressão, ponto final. Porque, na verdade, a repressão não é à empresa capitalista que lucra com o tráfico. A repressão ataca apenas e tão somente o segmento mais pobre da sociedade. Desdentados, de chinelos, armados e drogados.
Caso existisse interesse em combater realmente o narcotráfico se trabalharia muito menos com repressão e muito mais com a inteligência - no caminho da droga e da arma, nos fornecedores, nas fronteiras, na costa, nos portos e aeroportos, com uma integração de esforços e recursos dos governos de alguns países já conhecidos.
O que a polícia e a imprensa chamam de “grandes traficantes” são pessoas que, na maioria das vezes, nunca saíram da favela. São pessoas que não têm acesso a escola, nem a internet, que não sabem onde ficam a Colômbia ou a Bolívia, que só conhecem as vielas daquele espaço que controla como soldado/escravo do tráfico.
Boa parte dos chamados “grandes traficantes” são pessoas que têm baixíssima escolaridade e não teriam a menor condição de estar à frente de um negócio sofisticado como é o comércio internacional de drogas e armas.
E o governo insiste em achar e mostrar que, combatendo esses miseráveis, combate o tráfico. Pois, sim.
Existe um problema maior. O tráfico e o consumo de drogas têm que ser entendidos dentro da lógica de exclusão social, que é muito profunda. O processo de exclusão é histórico, é cultural, é ideológico.
Um programa de segurança pública tem que partir do sagrado princípio de se garantir cidadania aos pobres, aos moradores das favelas. Porque a principal vítima disso é o morador da favela. Não é a classe média.
A classe média sustenta o tráfico, consumindo, comprando, cheirando e fumando. E mora ao seu lado.
Resumo da ópera: há um processo consolidado ideologicamente de criminalização da pobreza. Isso legitima toda essa lógica de segurança pública que opera exclusivamente na repressão e no controle das comunidades pobres.
Sem enfrentar a origem desta complexa questão social; atirando na vítima como se fora o inimigo.
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