A conversa de hoje vai totalmente inspirada pela força das idéias e polêmicas sugeridas pelas inúmeras atividades da SBPC, realizada em Natal.
O déficit educacional brasileiro não é apenas um óbice para a realização do país do futuro, como muitos projetam. São atuais e altamente comprometedores os problemas de força de trabalho qualificada que o País enfrenta em diversos setores, como o da mineração, da metalurgia, do petróleo, da construção civil, da informática, entre muitos outros.
Para construir o futuro, precisamos desesperadamente de educação de qualidade.
Contrapondo-se a certo estado de coisas, quero mostrar que existe no Brasil uma enorme expectativa em relação ao fato de que profissionais da área de educação em ciências e tecnologia possam responder prontamente, de modo competente e eficaz, às inúmeras e diversificadas demandas por métodos, materiais e projetos pedagógicos inovadores.
À importância política e econômica do assunto para o desenvolvimento da sociedade soma-se, ainda, um aumento considerável de interesse (cultural) pela ciência e tecnologia de ponta produzidas nos mais distantes laboratórios dos Estados Unidos, da Europa e do Japão, todos reforçando no imaginário coletivo a idéia de que, por meio de suas "aplicações" a C&T, mudarão para sempre nossas vidas, para melhor. Será?
Desafios para os cientistas, desafios para os educadores, nós não poderíamos mais ignorar o quanto estamos impregnados por essa imagem de uma ciência que triunfa sem cessar e que, por isso mesmo, já não pode parar mais de produzir sentidos para a vida humana.
Se hoje tratamos de transgênicos e nanotecnologia nas páginas de economia e política dos jornais, é porque estamos de tal forma imersos em uma cultura científica e tecnológica que não distinguimos mais os discursos pelo o que, de fato, eles trazem de conteúdo concreto para transformar nossas vidas.
Aos que se interrogam assim sobre a importância de ensinar bem ciência e tecnologia, tanto quanto a leitura e a matemática, nós diríamos que aí está o grande desafio do século XXI.
Afinal, não nos parece muito descabido mencionar, no atual contexto econômico e político, o fato de que o papel da educação em ciência e tecnologia nas sociedades contemporâneas transcende, de forma muito clara, os objetivos tradicionais do ensino.
Ao introduzir o tema da educação em geral queríamos, na verdade, fazê-lo para que se compreenda a irreversibilidade de dois fenômenos atuais.
De um lado, não se pode mais, felizmente, por em questão os princípios que regem os processos formativos em nossa sociedade: 1) igualdade de condições; 2) respeito à liberdade; 3) pluralismo de idéias e concepções; 4) universalização do ensino fundamental e médio; 5) valorização da escola e do professor; 6) gestão democrática; 7) garantia de qualidade e vinculação da escola ao mundo do trabalho e da vida social.
Trata-se, enfim, de assumirmos um papel diferente em relação ao conhecimento e à formação do educando. Formar pessoas, produzir bens e serviços, criar empregos são objetivos que estão muito além de um discurso economicista, sindical, pouco sensível aos apelos humanistas em relação à educação como formação de valores e comportamentos.
Por fim, ressalte-se que a educação em ciência e tecnologia do nosso povo não se fará sem a participação, lado a lado, de cientistas e educadores. Todas as reflexões e estratégias para alcançar tal objetivo devem ser encaradas como uma tarefa coletiva.
Que se formem núcleos da educação em ciência e tecnologia capazes de pensar saídas para os muitos impasses vividos, em nossos dias, pela educação. Que sejam instalados laboratórios didáticos em escolas, associações, clubes, museus. Que se construam cidades e parques da ciência, centros de ciência e arte, na capital e no interior, no centro e na periferia.
Certamente os dilemas que dividem hoje nossos cientistas e educadores não desaparecerão, mas, desde já, queremos acreditar que o fim da ideologia utilitarista em educação é uma evidência. O problema está na construção de sentido do que nela se aprende.
É fundamental ter claro que aprender ciência e tecnologia é algo que somente se pode fazer com um sentido claro em favor da vida. E esse é, sem dúvida, um posicionamento político.
Resumo da ópera: é preciso “pensar politicamente” nossos desafios educacionais.
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