Opnião Política

Rinaldo Barros

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    PARA ALÉM DO BOLSA FAMÍLIA

    “Ser Culto para ser Livre” (José Marti) Qualidade de vida não é um bem durável que possa ser estocado para consumo futuro. Nem uma conquista definitiva da sociedade. Trata-se, antes de tudo, de um bem público altamente perecível, que se deteriora ao menor descuido. Os bens públicos têm como características básicas: a não-exclusividade e a não-rivalidade. Nenhuma pessoa pode ser privada ou excluída de usufruí-los. Se a qualidade de vida tem essa natureza de bem público, então deve ser garantida igualmente a todos. O Brasil é uma das sociedades que oferece melhor qualidade de vida aos seus habitantes. Todavia, apenas uma parte dos brasileiros (a menor) desfruta hoje dessas condições privilegiadas que se aproximam dos padrões do Primeiro Mundo. No entanto, nossa nação continua reproduzindo o mesmo quadro de profundas desigualdades que divide o DOIS. São abundantes os estudos acadêmicos que acentuam o caráter dual da sociedade brasileira, virtualmente cindida em duas nações: uma muito rica, formada por uma minoria com padrões de consumo altamente sofisticados; outra muito pobre, que reúne a maioria da população, excluída dos benefícios do desenvolvimento e do consumo dos bens básicos da cidadania. Nas últimas décadas, o Brasil experimentou um processo de acelerado crescimento econômico. No entanto, ao lado das inegáveis realizações econômicas desse período, é preciso reconhecer que ainda é preciso avançar muito mais na área sócio-cultural. A prioridade dos governos municipal, estadual e federal, deve ser a universalização de bens e serviços sociais de qualidade: planejamento, cidade limpa, qualificação profissional, saúde, educação, informação, tecnologia, transporte público de massa, esporte, lazer e muito investimento no fortalecimento da identidade cultural de nossa gente. Significa, em outras palavras, ter como meta assegurar a todos, minimamente, o padrão de qualidade de vida que hoje é desfrutado pela classe média alta. A atual modernidade excludente levará inevitavelmente ao esgarçamento dos vínculos de solidariedade e ao recrudescimento da violência urbana, sintomas que já estão evidentes em nosso país. O outro caminho que o Brasil pode (e deve) escolher, para ingressar no Terceiro Milênio, pressupõe uma "nova forma de modernização", que tenha como seu objetivo central o fim da exclusão social, econômica, política e, principalmente, cultural, integrando sua população em uma única sociedade. Um Projeto de Nação, não um projeto de poder. Essa opção implica em reinventar a própria idéia de modernidade. Sob esta nova ótica, modernidade será, por exemplo: 1) levar saneamento básico para os cerca de 70% de domicílios que ainda não dispõem de rede de esgoto; 2) assistir aos milhares crianças e adolescentes que ainda se encontram em condições de risco; 3) disseminar a prática da solidariedade e da Cultura da Paz em todos os segmentos e: 4) combater a exclusão por todos os meios, principalmente através o associativismo, o cooperativismo, a capacitação continuada e a difusão cultural ampla, geral e irrestrita. Para muito além do que já consegue o Bolsa Família, é claro. Entretanto, não se trata de uma escolha qualquer que possa ser feita sem maior responsabilidade cívica. Sem menosprezar o que já foi conquistado, advogamos que, para não sacrificar estas conquistas, é preciso ampliá-las de tal forma que toda sociedade seja beneficiada. A universalização das condições mínimas de bem-estar é o desafio que o nosso Brasil tem no presente e do qual depende o nosso futuro. Neste desafio, é preciso compreender a importância fundamental da dimensão político-cultural para a construção da cidadania. Aliás, a economia que mais cresce no mundo atualmente é a da cultura. A produção cultural e o entretenimento representam quase 20 por cento do PIB das grandes potências. Lamentavelmente, aqui no patropi, na contramão do desenvolvimento, constatamos um notório desprezo político do governo do PT para com a nossa cultura. Especificamente em se tratando de cinema, a situação é peculiar, para pior. Na década de 1970, havia cerca de 3 mil salas de projeção. Hoje, 40 anos depois, quando o nosso cinema voltou a ser respeitado internacionalmente, o número de salas de projeção não ultrapassa duas mil, o que corresponde à relação vergonhosa de uma sala para cada 90 mil habitantes. No México, essa relação é de uma sala de projeção para cada 30 mil habitantes. Esta informação dá uma rápida idéia da total falta de compromisso do governo do PT com a educação e difusão cultural em benefício da nossa população. Tudo acontece como se realmente houvesse uma aposta oficial na desinformação e ignorância; meramente, com o objetivo de tirar proveito do assistencialismo e do clientelismo eleitoreiros. Bolsa Família, sim. Bolsa voto, não!

    Tags » BOLSA FAMILIA BOLSA-ESCOLA BOLSA-VOTO BRASIL BRASILEIROS CINEMA CULTURA EDUCAÇÃO ELEIÇÕES 2010 EXCLUSÃO MODERNIDADE PT VIOLÊNCIA VOTO
    • 7 August 2010
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