Opnião Política http://opiniaopolitica.posterous.com Rinaldo Barros posterous.com Wed, 23 Jun 2010 17:00:15 -0700 O grito de Zé Ninguém http://opiniaopolitica.posterous.com/o-grito-de-ze-ninguem http://opiniaopolitica.posterous.com/o-grito-de-ze-ninguem
A repetição das calamidades generalizadas provocadas pelas enchentes confirma o que há tanto tempo já se podia prever. Se hoje os estragos são imensos e os mortos se contam aos milhares, não tardará o dia em que os flagelados e os mortos totalizarão milhões. Somos incapazes de aprender com nossos erros? As advertências cada vez mais dramáticas da Natureza de nada valem? O Nordeste é uma região com 1.548.672 km2, três vezes o tamanho da França, mais ou menos do tamanho do México, equivale a 18,2% do território brasileiro, onde vivem 30% da população, cerca de 50 milhões de habitantes. Esta população é igual às da Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, somadas. Apesar da progressiva melhoria, o Nordeste ainda mantém de longe o maior nível de pobreza e o menor nível de renda do país. Poucos líderes políticos possuem clareza sobre a dimensão e a importância do Nordeste. Menos ainda sabem de sua potencialidade econômica, do que nossa gente seria capaz, desde que tivesse efetivo apoio governamental, assistência técnica, crédito e condições para produzir. Por que é tão difícil entender que o Nordeste não é problema? O Nordeste é solução para o Brasil. Basta que se inverta a tendência da política econômica que foi imposta à região. E, ao invés de ter o monetarismo (especulações) como base, apostar no desenvolvimentismo. O governo federal deveria, pelo menos, cumprir os valores destinados a investimentos em infra-estrutura, crédito e assistência técnica. Com certeza, o Nordeste superaria sua condição de ser o detentor do maior nível de pobreza e do menor nível de renda do país. Na contramão da racionalidade, e agindo com descaso para com o Nordeste brasileiro, o governo federal investiu apenas 14 por cento do que estava previsto no OGU para ações de prevenção ambiental em áreas de risco (contenção de encostas, drenagem superficial e subterrânea, desassoreamento, retificação e canalização de rios e córregos), o que – sem dúvida - teria evitado as recentes tragédias com as enchentes em Alagoas e Pernambuco. Segundo o site da Ong Contas Abertas (http://contasabertas.uol.com.br), “Alagoas – o estado mais atingido pelas cheias dos rios nos últimos dias – não recebeu um centavo do governo federal para prevenção em 2010. Já Pernambuco, também castigado pelas fortes chuvas dos últimos dias, recebeu menos de 1% do total repassado pelo Ministério da Integração, por meio do programa de prevenção; somente R$ 172 mil”. Ou seja, as dificuldades para realizar ações concretas de prevenção são mais políticas do que técnicas. Segundo levantamentos preliminares do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad), junto às coordenações estaduais de defesa civil, em Pernambuco, 53 municípios declararam situação de emergência. São 17.719 seres humanos desabrigados, 24.301 seres humanos desalojados e 13 óbitos. Em Alagoas são 22 municípios atingidos, com 32.335 seres humanos desalojados, 25.843 seres humanos desabrigados e 19 mortes. De quem é a culpa? A culpa não é de Deus nem da Natureza, mas da ausência de planejamento e da falta vontade política efetivamente voltada para a construção da dignidade do povo nordestino. Senão vejamos. O Estatuto da Cidade – mais um exemplo de lei que não pegou no Brasil – obriga a todos os municípios com mais de 20 mil habitantes a construir um Plano Diretor e a realizar estudos geotécnicos que definam com clareza quais são as áreas de risco e quais as áreas de interesse social, para o devido uso e ocupação do solo urbano. O governo federal e as administrações das cidades devastadas pelas águas em Alagoas e Pernambuco foram irresponsáveis e não cumpriram a legislação em vigor! Na verdade, ao lado dessa brutal ausência de responsabilidade para com o interesse público, é possível constatar – atanazando a vida do brasileiro – estradas esburacadas, aeroportos sucateados, saúde pública caótica, juventude sem rumo, insegurança e criminalidade crescentes. A pior tragédia, entretanto, é que Zé Ninguém, em seu desamparo, não consegue perceber que foi e está sendo enganado e explorado em todas as dimensões de sua vida. Resumo da ópera: pela incapacidade de demonstrar indignação, pela ignorância bíblica, por não ter sequer voz para gritar sua miserável condição; contraditoriamente, Zé Ninguém continua aprovando o governo Lula, como se as calamidades fossem obra do destino ou da vontade de Deus. Que o leitor considere este artigo um grito de Zé Ninguém, e que tenha força de ecoar na consciência na hora de votar.

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