O assunto deste artigo é de causar arrepios. Espero que o leitor leia com calma para não entender (errado) que estou fazendo apologia ao crime. Falo de perdas importantes, falo de cérebros desviados, falo de inteligências privilegiadas empregadas para a delinqüência.
Começo lembrando que a modernização brasileira foi atravessada por questões cruciais (impactos da urbanização acelerada, aviltamento da função do professor, projeto repartido de educação, visão dominante preconceituosa em relação à pobreza, desigualdade espacial e cultural, e socialização vazia de valores universais).
Mas, quero mesmo é falar sobre o seguinte: o Colégio Objetivo procurou, recentemente, superdotados entre alunos da sétima série de 51 escolas da rede municipal da cidade de São Paulo. Os escolhidos ganhariam mensalidade gratuita, aulas no curso pré-vestibular, bolsa em dinheiro e ajuda extra para desenvolver suas aptidões.
Depois de meses de seleção entre uma grande fila de pretendentes, sobraram 11 vitoriosos.
Como em qualquer agrupamento humano existe uma porcentagem de indivíduos com aptidões acima da média, se aquela seleção fosse estendida para todas as sétimas séries da rede municipal paulista, na qual existem mais de 500 escolas, teria revelado mais de 50 superdotados.
Somente na capital de São Paulo. Pense como seria no Brasil todo.
Estimulados para transformar seu potencial em alguma habilidade, a probabilidade é que se desenvolvessem acadêmica e profissionalmente. É óbvio, não é?
Não. Não é óbvio. Qual seria o resultado se, em vez de apoiados para avançar nos estudos, os integrantes desse grupo permanecessem em escolas de baixa qualidade, não conseguissem emprego e vivessem em comunidades miseráveis?
Provavelmente, muitos deles usariam sua inteligência e espírito empreendedor para liderar gangues, seqüestrar, assaltar ou traficar drogas e armas. Fala-se muito que a criminalidade é conseqüência de uma série de combinações sociais, culturais e econômicas. Mas quase nunca se fala que ela também é o resultado perverso da inteligência. Gênios dedicados ao crime...
Nunca vi nenhum teste de inteligência aplicado entre líderes de gangues, mas o que sempre me chamou a atenção, observando crianças e adolescentes envolvidos no crime, é uma visível esperteza e rapidez de raciocínio, apuradas na seleção "natural" da rua.
O chefe de gangue tem noções de táticas e estratégias que fariam dele um executivo de empresa, empresário vitorioso ou governante. Possui capacidade de liderança, trabalha muito, sob intenso estresse, com os mais variados riscos, o que exige foco, disciplina e habilidade de gestão de equipes.
Ou seja, não estamos apenas desperdiçando talentos de possíveis futuros músicos, médicos, engenheiros, físicos, químicos, biólogos, professores, empresários, mas transformando-os em inimigos da sociedade, gente que nada constrói, só destrói. O custo social é dobrado.
O envolvimento de adolescentes no tráfico de drogas e seu extermínio ressaltam a mais grave armadilha social brasileira: os milhões de jovens sem perspectiva. É o preço mais alto de toda a nossa história de exclusão, de deficiência escolar e de baixo crescimento econômico.
Segundo estatísticas oficiais, em oito regiões metropolitanas, 27% dos jovens entre 15 e 24 anos não trabalham nem estudam. Isso significa 2 milhões de desesperançados. Justamente nesse contexto alguns dos mais empreendedores e mais inteligentes serão recrutados pelas quadrilhas.
Estou cada vez mais convencido de que o problema da violência é mescla da pobreza com a destruição de laços afetivos das crianças e dos jovens; essa destruição é o que os remete para o mundo da invisibilidade. Daí que o desajuste familiar é uma das bases da violência.
Resumo da ópera: o Brasil precisa aperfeiçoar e dedicar sua inteligência, tanto para combater o crime organizado, como para não permitir que os nossos jovens, por desesperança, sejam cooptados para o mal. Segurança é uma questão de inteligência.
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