Rinaldo Barros é um observador atento e perspicaz da cena brasileira.
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Desde quando vivi de muito perto a experiência da “revolta dos estudantes”
de maio de 1968 em Paris, comecei a duvidar das teorias que aprendera sobre
as mudanças sociais no mundo capitalista. Estas estavam baseadas na visão da
História como uma sucessão de lutas entre as classes sociais visando ao
controle do Estado para, por intermédio dele, seja manter a dominação de
classes, seja destruir todas elas e construir a “sociedade do futuro” sem
classes e, portanto, sem que os partidos tivessem função relevante. A qual
seria crucial, na visão dos revolucionários do século 20 de inspiração
leninista, apenas na “transição”, quando se justificaria até mesmo a
ditadura do proletariado, exercida pelo partido.
Pois bem, nas greves estudantis da Universidade de Paris, em Nanterre e na
Sorbonne (assim como nos câmpus universitários americanos, com outras
motivações), que acabaram por contaminar a França inteira e repercutiram
pelo mundo afora, vi, perplexo, que as palavras de ordem não falavam em
“anti-imperialismo” e só remotamente mencionavam os trabalhadores, mesmo
quando estes, atônitos, entravam nos auditórios estudantis “ocupados” pelos
ativistas jovens. Falava-se em liberdade, em ser proibido proibir, em amor
livre, em valorizar o indivíduo contra o peso das instituições
burocratizadas, e assim por diante. É verdade que nas passeatas havia
bandeiras negras (dos velhos anarquistas) e vermelhas (dos bolcheviques).
Faltavam os símbolos do novo e mais, na confusão ideológica geral, pouco se
sabia sobre o que seria novo nas sociedades, isto é, nas estruturas sociais,
do futuro. Por outro lado, o estopim da revolta não foram as greves
trabalhistas, que ocorreram depois, nem choques no plano institucional, mas
pequenos-grandes anseios de jovens universitários que, como num
curto-circuito, incendiaram o conjunto do país.
Só que, logo depois, De Gaulle, vendo seu poder posto à prova, foi buscar
apoio nos paraquedistas franceses sediados na Alemanha e, com a cumplicidade
do Partido Comunista, restabeleceu a antiga e “boa” norma. Por que escrevo
essas reminiscências? Porque desde então o mundo mudou muito, principalmente
com a revolução informática. Crescentemente as “ordens estabelecidas”
desmoronam sem que se perceba a luta entre as classes. Foi assim com o
desmoronamento do mundo soviético, simbolizado pela queda do Muro de Berlim.
Está sendo assim hoje no norte da África e no Oriente Médio. Cada vez mais,
em silêncio, as pessoas se comunicam, murmuram e, de repente, se mobilizam
para “mudar as coisas”. Neste processo, as novas tecnologias da comunicação
desempenham papel essencial.
Até agora, ficaram duas lições. Uma delas é que as ordens sociais no mundo
moderno se podem desfazer por meios surpreendentes para quem olha as coisas
pelo prisma antigo. A palavra, transmitida a distância, a partir da soma de
impulsos que parecem ser individuais, ganha uma força sem precedentes. Não
se trata do panfleto ou do discurso revolucionário antigo nem mesmo de
consignas, mas de reações racionais-emocionais de indivíduos. Aparentemente
isolados, estão na verdade “conectados” com o clima do mundo circundante e
ligados entre si por intermédio de redes de comunicação que se fazem,
desfazem e refazem ao sabor dos momentos, das motivações e das
circunstâncias. Um mundo que parecia ser basicamente individualista e
regulado pela força dos poderosos ou do mercado de repente mostra que há
valores de coesão e solidariedade social que ultrapassam as fronteiras do
permitido.
Mas ficou também a outra lição: a reconstrução da ordem depende de formas
organizacionais, de lideranças e de vontades políticas que se expressem de
modo a apontar um caminho. Na ausência delas, volta-se ao antigo – caso De
Gaulle – ou, na iminência da desordem generalizada, há sempre a
possibilidade de um grupo coeso e nem sempre democrático prevalecer sobre o
impulso libertário inicial. Noutros termos: recoloca-se a importância da
pregação democrática, da aceitação da diversidade, do direito “do outro”.
Talvez seja este o enigma a ser decifrado pelas correntes que desejem ser
“progressistas” ou “de esquerda”. Enquanto não atinarem ao “novo” nas
circunstâncias atuais – que supõe, entre outras coisas, a reconstrução do
ideal democrático à base da participação ampliada nos circuitos de
comunicação para forçar maior igualdade -, não contribuirão para que a cada
surto de vitalidade em sociedades tradicionais e autocráticas surjam de fato
formas novas de convivência política. Agora mesmo, com as transformações no
mundo islâmico, é hora de apoiar em alto e bom som os germens de
modernização, em vez de guardar um silêncio comprometedor. Ou, pior,
quebrá-lo para defender o indefensável, como Hugo Chávez ao dizer “que me
conste, Kadafi não é assassino”. Ou como Lula, que antes o chamou de “líder
e irmão”! Para não falar dos intelectuais “de esquerda” que ainda ontem,
quando eu estava no governo, viam em tudo o que era modernização ou
integração às regras internacionais da economia um ato neoliberal de
vende-pátria. Exigiam apoio a Cuba, apoio que não neguei contra o injusto
embargo à ilha, mas que não me levou a defender a violação de direitos
humanos. Será que não se dão conta de que é graças ao maior intercâmbio com
o mundo – e principalmente com o mundo ocidental – que hoje as populações do
norte da África e do Oriente Médio passam a ver nos valores da democracia
caminhos para se libertarem da opressão? Será que vão continuar fingindo que
“o Sul”, nacional-autoritário, é o maior aliado de nosso desenvolvimento,
quando o governo petista busca, também, maior e melhor integração do Brasil
à economia global e ao sistema internacional, sem sacrifício dos nossos
valores mais caros?
Há silêncios que falam, murmuram, contra a opressão. Mas há também silêncios
que não falam porque estão comprometidos com uma visão que aceita a
opressão. Não vejo como alguém se possa imaginar “de esquerda” ou
“progressista” calando no momento em que se deve gritar pela liberdade.
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