Rinaldo Barros é um observador atento e perspicaz da cena brasileira.
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A conversa de hoje foi inspirada pela inusitada situação mundial, e pela necessidade de assuntar e atinar sobre quais os caminhos a seguir. Parece-me que há duas situações que requerem dois “planos” para os pensadores, em especial para a esquerda dos Estados Unidos.
A primeira situação é no curto prazo. O mundo se encontra numa depressão profunda, que, pelo menos nos próximos um ou dois anos, só vai se agravar. No curto prazo imediato, o que preocupa a maioria das pessoas que é o desemprego, a redução grave de sua renda, o endividamento das famílias e, em muitos casos, a perda da moradia.
Se os movimentos progressistas não tiverem um plano para fazer frente a essa situação de curto prazo, eles não poderão evitar o crescimento da pobreza no mundo.
A segunda situação é a crise estrutural do capitalismo como sistema mundial, que, em minha opinião, enfrenta sua provável extinção nas próximas 4 ou 5 décadas. Esse é o prognóstico no médio prazo.
E, se não houver um “plano” para esse médio prazo, aquilo que vier a substituir o capitalismo como sistema mundial será provavelmente algo pior, muito pior, que este sistema terrível com o qual convivemos há três séculos.
As duas situações requerem táticas diferentes, todavia, combinadas. Vejamos.
Os Estados Unidos elegeram, em 2008, um presidente centrista cujas inclinações são um tanto quanto à esquerda do centro. A esquerda estadunidense, ou a maior parte dela, votou nele por duas razões. A alternativa seria pior - de fato, muito pior. Logo, votaram pelo mal menor. A segunda razão foi que pensaram que a eleição de Obama abriria espaço para movimentos sociais de esquerda, nos EUA e no mundo.
O problema com que a esquerda mundial se defronta não é novo. Situações como essas são comuns na história: Roosevelt em 1933, Attlee em 1945, Mitterrand em 1981, Mandela em 1994, Lula em 2002. Todos foram os Obamas de seu lugar e seu tempo. E a lista poderia ser prolongada ao infinito.
O que faz a esquerda quando essas figuras "decepcionam"? Na verdade, nada pode fazer. A meu ver, é forçoso constatar que a única atitude sensata é aquela adotada pelo MST (Movimento dos Sem-Terra) no Brasil.
O MST apoiou Lula em 2002 e, apesar de todas as promessas que ele deixou de cumprir, apoiou sua reeleição em 2006. E o fez com plena consciência das limitações do governo de Lula (que traiu os princípios do PT para chegar ao poder). Mas o que o MST fez foi manter pressão constante sobre o governo de Lula, denunciando-o publicamente quando o governo o merecia, apesar de tê-lo apoiado.
O MST seria, talvez, um exemplo a ser seguido, se nos EUA existisse qualquer coisa comparável a ele em termos de movimento social forte. Não existe. Mas, isso não deveria impedir os oposicionistas de pressionar Obama abertamente, publicamente e com força, além de, é claro, aplaudi-lo quando ele faz a coisa certa.
O que a oposição de esquerda dos EUA quer de Obama, no curto prazo, não é transformação social. Ele não deseja nem é capaz de oferecer isso. Ela quer dele medidas que minimizem a dor e o sofrimento da maioria das pessoas neste momento. Isso ele pode fazer, e é com relação a isso que a aplicação de pressões sobre ele pode fazer a diferença.
O médio prazo é outra coisa. E nesse tocante Obama é irrelevante.
O que está acontecendo é uma espécie de “desintegração” do capitalismo como sistema mundial, não porque ele não pode garantir o bem-estar da grande maioria da população (isso é algo que o sistema nunca pôde fazer), mas porque não consegue mais garantir que os capitalistas tenham o acúmulo permanente de capital que é sua razão de ser. Há incertezas crescentes no ar.
Chegamos a um momento em que nem os capitalistas, nem os trabalhadores estão tentando preservar o sistema. Estão ambos tentando estabelecer um sistema novo, mas é claro que têm idéias muito diferentes, radicalmente opostas quanto à natureza de tal sistema ainda em gestação.
Estamos vendo flutuações malucas, e incertezas, em todos os indicadores econômicos usuais - os preços das commodities, os valores relativos das moedas, os níveis reais de tributação, a quantidade de itens produzidos e comerciados.
Como ninguém sabe realmente quais serão as flutuações desses indicadores, que mudam diariamente, ninguém consegue fazer um planejamento sensato de nada.
Pelo andar da carruagem, é possível antever que um sistema novo nascerá do velho e caótico capitalismo. Mas não sabemos ainda qual será a essência desse sistema.
O que é possível fazer? Isso que faço agora: compartilho com o caro leitor minhas elucubrações, na esperança de que possamos juntos aprender e atinar com o que nos espera.
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